Chão de ferro
Sempre gostei de tampas de bueiro, e durante algum tempo participei de uma comunidade no Flickr dedicada a fotografá-las. Há tampas muito variadas pelo mundo, e tenho fotos de uma mais linda do que a outra, em geral com os pés dentro do quadro, minha forma favorita de registrar por onde andei.
As tampas de bueiro brasileiras, infelizmente, são um fracasso estético na comparação com seus pares internacionais. Não passam de pragmáticas placas de metal, sem qualquer intenção de fazer bonito, perfeito exemplo do desleixo urbano que nos caracteriza. Uma tampa de bueiro bem decorada diz muito do capricho dos administradores da cidade.
Por outro lado, não conheço cidade tão cheia de bueiros quanto o Rio. No outro dia, andando por Ipanema e tendo de contornar uma obra que se fazia em torno de um deles, me dei conta de que a calçada era praticamente toda constituída de bueiros.
Decidi contá-los. Voltei para a esquina e comecei do começo. Vocês já tentaram contar bueiro? É muito difícil. O vai e vem das pessoas atrapalha, amigos e conhecidos interrompem as contas e levam-se esbarrões de gente que não olha por onde anda, até porque o contador de bueiros anda sem olhar. Apesar disso, quando cheguei à outra esquina, tinha contado 161, e esbarrado em pistas da história das telecomunicações, com tampas da CTB, da Telerj e de um genérico Telefone convivendo lado a lado. Também encontrei a preciosidade da foto, versão estapafúrdia da Light: depois a gente se espanta quando explodem.
O número não me saiu da cabeça. 161?! Como era possível a existência de 161 bueiros num único trecho de calçada?! Eu devia estar errada, mas ainda que tivesse errado por cem, sobrariam 61 bueiros num único lado de um único quarteirão, muito mais do que se vê em qualquer outra parte. Resolvi voltar no dia seguinte para uma recontagem... e cheguei a 164! Joguei a toalha. O fato é que, por uma ou por outra conta, está sobrando muito bueiro em Ipanema.
* * *
Houve um tempo em que o gosto musical da Bia ficou tão diferente do meu que quase não havia o que pudéssemos escutar juntas; uma das raras exceções era “Hair”, o musical que fez a cabeça da minha geração e que continuou vitorioso nas paradas até a adolescência da minha filha.Perdi a conta do número de vezes em que vimos e revimos o filme de Milos Forman, e a quantidade de vezes em que os dois CDs, o da produção teatral e o da versão para o cinema, foram trilha sonora para nossas viagens de carro.
“Hair” resumia tudo em que eu acreditava com quatorze anos, época em que geralmente se acredita em tudo ou em nada com a mesma intensidade. Eu acreditava em paz e amor, e achava, de verdade, que bastava um pouco de boa vontade para que todos os seres humanos passassem a conviver em harmonia; tinha uma saudável descrença de ritos religiosos, mas achava muito bonitos os mantras indianos, adorava aquelas túnicas coloridas e tinha enorme prazer em sentir cheiro de incenso pela casa. No mais, até pelo histórico da família, tinha horror a guerra, qualquer guerra.
Quando a Bia e as suas amigas descobriram “Hair”, o mundo já era outro. A identificação da sua geração com o “meu” musical passava por outros circuitos, talvez pela nostalgia de uma postura de rebeldia que, no fim dos anos 80, já não fazia sentido. Independentemente da motivação, porém, a história nos fisgou por igual, e até hoje sabemos as músicas de cor.
Agora, passados tantos anos, fomos juntas à estréia de “Hair” no Casagrande – e saímos de lá com o mesmo encantamento antigo. A produção está linda, e tem um elenco jovem, afinado e cheio de garra: mesmo os atores que ficam no fundo do palco, encobertos pela sombra, dançam e cantam cheios de entusiasmo. Os figurinos e o visual da tribo estão ótimos.
O mais importante de tudo, porém, é que Claudio Botelho conseguiu o prodígio de traduzir as músicas sem torturar as palavras: elas caem naturalmente onde devem cair, e não causam estranheza ao ouvido acostumado à versão original. Uma coisa é traduzir um musical do qual ninguém se recorda, ou do qual ninguém conhece as letras; outra é mexer com o ícone de tantas gerações, com músicas que todos cantaram milhares de vezes. Sem essa tradução de alto nível, não poderia existir “Hair” em português.
* * *
Nada como o tempo para aproximar as gerações. Nos idos de “Hair”, a geração dos meus pais, e dos pais dos personagens, me parecia irremediavelmente perdida – uma geração que não sabia nada da vida, que tinha mania de trabalho e obsessão com contas e contracheques. Hoje, que já sou mais velha do que era aquela geração naqueles tempos, me pergunto como imaginávamos sobreviver. Era fácil ser hippie com mesada, e relativamente simples viver à margem da sociedade com casa e comida na retaguarda.
Os pais de Claude, que eram ridículos quando foram escritos, hoje, apesar de caricatos, me despertam certa simpatia. A mãe aspira a casa porque, afinal, alguém precisa cuidar da limpeza; e o pai cobra um trabalho do filho porque, até prova em contrário, seres humanos precisam trabalhar para garantir seu sustento.
O fato de exigirem que o filho se aliste são outros quinhentos; essa é uma parte do “sistema” que nunca vou conseguir entender. Não acredito mais que a convivência entre os bípedes deste planeta seja exatamente uma coisa simples, mas continuo firmemente convencida de que não é brigando que a gente se entende.
(O Globo, Segundo Caderno, 11.11.2010)
9.11.10
O papo da Bienal
Fui a Campos falar sobre os jornais e o desafio da internet.A Alcineia Gama estava lá e fez matéria para o portal da cidade.
A notícia está AQUI.
8.11.10
6.11.10
Nunca houve tempo igual
Escrevi este pequeno ensaio sobre os últimos cinquenta anos para o livro "50 anos construindo o futuro", publicado por ocasião dos 50 anos da CBS-Previdência:
As geladeiras eram importadas e os ventiladores um perigo para as crianças, com suas pás de metal desprotegidas. Comia-se manteiga sem culpa no café da manhã, almoçava-se em casa, jantava-se lautamente. Fotógrafos ganhavam a vida fazendo 3 x 4 na praça ou surpreendendo casais e famílias que passeavam na rua: os instantâneos ficavam prontos rapidinho, em menos de uma semana. As contas eram pagas em dinheiro vivo. O correio trazia cartas e telegramas. As cartas aéreas eram escritas em papel fino, para não ficarem pesadas e, por conseguinte, caras. Os comunicados fúnebres chegavam em envelopes com tarjas pretas, que lhes davam gravidade e os destacavam do resto da correspondência. A televisão era um aparelho de luxo, que apresentava programação local por algumas horas – e, mesmo assim, em pouquíssimos estados. Para o grande público, as notícias vinham pelo rádio e pelos jornais, que traziam informações de todo o tipo, das grandes manchetes ao resultado dos concursos públicos. O noticiário em imagens garantia a circulação das revistas semanais e a popularidade dos cine jornais, projetados nas sessões de cinema antes dos longa-metragens. Mães zelosas guardavam revistas para os trabalhos escolares dos filhos e, em toda casa com um mínimo de recursos, coleções de livros de referência para jovens tinham destaque nas estantes. Havia ótimo mercado para as enciclopédias, vendidas de porta em porta, em suaves prestações mensais. A palavra “tecnologia”, apesar de inventada em 1829, não fazia parte do vocabulário geral.
(Continua AQUI)
4.11.10
Recadastramento, o drama
Era uma vez uma velhinha que, como a maioria dos velhinhos, vivia da aposentadoria. Um dia, consultando um caixa eletrônico, viu que a sua conta estava zerada e que a pensão não havia sido depositada. Ficou muito preocupada, com medo de que o cartão bancário houvesse sido clonado, e lá se foi para o banco, conferir o que tinha acontecido. A moça do caixa checou daqui e dali e, afinal, descobriu que o dinheiro não fora depositado porque a velhinha não havia se recadastrado. Para voltar a receber a pensão, explicou a moça, devia ir a certa repartição pública. A velhinha prontamente se dirigiu para lá; mas lá não era lá. Depois de muita busca e demora, apareceu afinal alguém que sabia das coisas, e mandou-a para outro endereço. Era lá.
-- Como é que vocês fazem um recadastramento sem avisar a ninguém? – protestou a velhinha.
-- Mas nós avisamos – respondeu o funcionário. – Divulgamos em todas as rádios da região, e no jornal “A Voz da Serra”.
A velhinha, que não gosta de ouvir rádio nem lê “A Voz da Serra”, argumentou que tinha endereço certo e sabido, e que em relação a assuntos tão importantes o mínimo que o estado podia fazer era enviar correspondência. O funcionário concordou, mas tranquilizou-a, dizendo que, dentro de uma semana, ela receberia um cartão magnético que resolveria todos os seus problemas futuros. A pensão voltou a ser depositada; o cartão, porém, nunca chegou. Em compensação, algum tempo depois, chegou uma carta da Seplag, Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, Rioprevidência, convocando-a para novo recadastramento – a ser realizado no dia anterior à chegada da carta, às 14h20.
A velhinha correu aflitíssima para o endereço indicado na carta. O local – uma escola estadual – estava vazio.
-- Eles não estão mais aqui – informaram. – O jeito é a senhora ir à Seplag.
A velhinha foi para a Seplag, onde foi recebida por uma funcionária atenciosa que, infelizmente, não pode fazer nada.
-- O problema é que agora são eles que fazem o recadastramento -- disse a moça.
-- Mas quem são “eles”? – perguntou a velhinha.
-- É que não é mais conosco, foi tudo terceirizado.
-- Não entendo porque a secretaria insiste tanto nesse recadastramento! -- desabafou a velhinha. – Na Europa, quando alguém morre, o cartório manda cópia da certidão de óbito para todas as fontes de aposentadoria, automaticamente.
-- Aqui também.
-- E aí? Não basta isso para que uma secretaria de planejamento e gestão possa separar vivos de mortos? Tem que assustar e atrapalhar os aposentados o tempo todo?
-- Ah, mas a senhora sabe como são essas coisas, né? – disse a funcionária.
Sim, a velhinha sabia. Um recadastramento terceirizado era coisa que devia dar muito dinheiro a várias pessoas. De qualquer forma, restava o problema: o que fazer? A moça orientou a velhinha a telefonar para um número da Seplag, o que a velhinha fez assim que chegou em casa. Neste número disseram a ela para ligar para outro número; e neste outro número, enfim, disseram-lhe para entrar no site, porque hoje em dia tudo é muito moderno e se resolve pela internet.
A velhinha ficou desesperada. Em seus 86 anos de vida, nunca precisou de computador, nunca pensou em ter computador e nunca teve a menor idéia de como entrar num site. Pegou um ônibus e desceu a serra, para pedir ajuda à filha. Mesmo assim, a tarefa não foi simples, porque o site é mal feito e complicado de navegar.
Depois de muitos cliques que não levaram a lugar nenhum, a filha conseguiu chegar à página que interessava. Entrou os dados pedidos e recebeu de volta um email:
“Acusamos o recebimento de sua justificativa de ausência. Fique atento à sua nova convocacão, que será divulgada através do site www.idfuncional.rj.gov.br, ou pelo número 0800 282 2326 no caso de segurados do Rioprevidência. Nos casos de segurados com impossibilidade de locomocão, o Rioprevidência fará o agendamento de sua identificacão biométrica no momento oportuno. Esta é uma resposta automática e não deve ser respondida.”
E este foi o ponto final das comunicações entre a velhinha e a sua fonte pagadora. Nem ela nem a sua filha entendem por que, tendo o endereço de email, a Seplag não avisa a data do agendamento aos interessados. O resultado é que, agora, estão ambas aflitas, uma discando o 0800 e a outra acessando o site, para não perder a data e a aposentadoria. Com o correio, já sabem que não podem contar, porque as cartas só chegam depois da data marcada. As duas me perguntaram se é isso que o estado considera boa gestão, e quantos aposentados não estarão na mesma angustiante situação.
-- Você já viu alguma empresa particular precisar recadastrar funcionário para saber quem existe e quem não existe? – me perguntou a velhinha. – Será que a Ambev ou a IBM recadastram seus funcionários o tempo todo? Você alguma vez já foi recadastrada?
-- Não, pensando bem, nunca fui. Sabe o que? Eu acho que isso dá uma crônica.
* * *
Enquanto isso, dois amigos tiveram os títulos de eleitor cancelados e não puderam votar nessas eleições, porque estão registrados em Mangaratiba, onde têm sítio. Descobriram isso no primeiro turno, quando chegaram à zona eleitoral e deram com os burros n’água. É que em Mangaratiba e em outros sete municípios fluminenses os eleitores precisaram se recadastrar.-- Mas como é que vocês não avisaram isso às pessoas?! – perguntaram, indignados.
-- Avisamos sim: o carro de som rodou a cidade inteira.
(O Globo, Segundo Caderno, 4.11.2010)
3.11.10
1.11.10
Não deixem de ver isso!
Um amigo de Facebook me recomendou essa projeção em 3D.
Não tenho nenhuma informação: não sei onde foi, quando foi ou quem fez, mas sei que foi o máximo!
Para assistir, cliquem AQUI.
A internet em manchete
Na quarta-feira acordei tarde, passei a manhã resolvendo coisas e só me conectei lá pelo meio da tarde. Chequei os comentários do blog e as mailboxes, e fui para o Twitter. Dei uma olhada na Timeline. O polvo Paul continuava liderando. Os demais assuntos não me chamaram a atenção. Em terceiro ou quarto lugar, se bem me lembro, estava Kirchner.
“O que será que ela fez agora?” pensei com o meu teclado, e fui conferir. Assim é que descobri a morte de Nestor Kirchner – e, de quebra, cristalizei a descoberta, da qual vinha gradativamente me dando conta, de que, ultimamente, o Twitter é mesmo a minha fonte primária de informação, o lugar onde pesco a notícia em estado bruto.
Essa informação, aliás, é interativa e, volta e meia, tem duas mãos – já me aconteceu várias vezes cair num engarrafamento inesperado, ou ter dúvidas sobre alguma coisa, dar uma tuitada a respeito e, na sequência, receber dezenas de respostas.
Mas essa “descoberta” óbvia não foi a única do caso. No dia seguinte, quando acordei e peguei o jornal, a proverbial lâmpada dos desenhos animados acendeu-se metaforicamente acima da minha cabeça: lá estava o efeito internet estampado na primeira página, numa manchete que, há poucos anos teria sido radicalmente diferente:
“E agora, Argentina?” perguntava “O Globo”.
Aquela era uma manchete feita com o pleno conhecimento de que, àquela altura, todos os leitores já sabiam da morte do ex-presidente. Uma manchete antenada com os caminhos atuais da informação. Para benefício de algum leitor que tivesse passado o dia anterior em retiro espiritual ou em viagem interplanetária, duas linhas menores esclareciam: “Morte súbita do ex-presidente Kirchner confunde cenário político do país”.
No todo, nada demais. Nada que já não tivesse acontecido antes no próprio jornal, onde as manchetes esportivas, sobretudo, já partem, há tempos, do princípio que o resultado do jogo não é mais novidade. Mas este foi o momento em que a minha ficha caiu completamente: ali estava a prova da influência da universalização da internet sobre a primeira página.
Há cinco ou seis anos, a manchete teria sido “Morre Kirchner”, ou “Enfarte mata Kirchner”, ou outra variação qualquer no mesmo tom; em alguns outros jornais, aliás, as manchetes foram exatamente essas, e subitamente elas me pareceram muito, muito antigas.
O mais curioso é que, há cinco ou seis anos, o rádio e a TV já existiam há décadas, e já transmitiam informação exatamente como fazem hoje, instantaneamente; mas os jornais pareciam não levar isso em conta. Era como se o público que se informava por rádio ou TV fosse um público diferente, ou como se, aos jornais, fosse obrigatória a reiteração da informação primária.
Aquela manchete de quinta-feira, “E agora, Argentina?”, me deu o que pensar. Ali estava, indiretamente, apontado o caminho que, mais e mais, os jornais impressos devem seguir no momento em que todas as outras formas de informação são mais ágeis: repercussão, análise, opinião. Bem ou mal, aquela era a pergunta que estava – e que ainda está -- na cabeça de todos. E agora, Argentina?
E agora, jornal?
Eu acho que é por aí mesmo.
(O Globo, Revista Digital, 1.11.2010)
31.10.10
29.10.10
Emergência geral!
Três cães lindos e dois gatos maravilhosos, todos saudáveis, mansinhos e bem cuidados, vivem uma situação desesperada: a bípede deles precisa entregar o imóvel, vai voltar a morar com a família e não pode levá-los consigo.Se alguém puder adotá-los, terá ótimos companheiros...
O perfil e as fotos deles estão neste BLOG.
28.10.10
Conversa vai, conversa vem
-- Você tem certeza mesmo de que não quer falar sobre a campanha? Você só tem essa semana, depois ela acaba, e aí adiós...
-- Tenho. Absoluta. O que antes já estava ruim, agora ficou pior.
-- Também não é assim. Toda campanha política tem pelo menos alguma coisa positiva. O próprio fato de estar sendo realizada, por exemplo.
-- Isso não é argumento! Não gosto nem de pensar na alternativa. O Brasil já ultrapassou esse estágio. Nós somos uma democracia, ou talvez seja o caso de dizer ainda somos uma democracia, apesar de todos os pesares. Uma das coisas que mais detesto nessa atual campanha é, justamente, a sua feição pouco democrática. A presidência é um cargo sério, o presidente de um país é o presidente de todos os brasileiros, mesmo daqueles que não simpatizam com as suas idéias ou com a sua candidata. Quando faz papel de cabo eleitoral ou de líder de gang não se diminui apenas a si, diminui o cargo que ocupa e, consequentemente, diminui a todos nós.
-- Tá, isso todo mundo já disse e já sabe.
-- Não é verdade. Dá uma olhada no Twitter ou no Facebook. A quantidade de gente que acha normalíssimo o comportamento do presidente é de assustar. Também é de assustar a quantidade de gente que até ontem não tinha idéia de quem é a Dilma e que hoje a põe num pedestal, só porque foi ungida pelo “cara”.
-- Pode ser que, com a propaganda política, tenham passado a conhecê-la melhor.
-- Será mesmo? A propaganda política não faz a gente conhecer ninguém melhor. Pelo contrário, faz desconhecer até quem achava que conhecia. Você algum dia imaginou o Serra distribuindo aqueles santinhos dizendo que “Jesus é verdade”?
-- É, aquilo pegou muito mal.
-- Pegou péssimo! Se Jesus é verdade, como fica a verdade dos brasileiros não-cristãos? E, aliás, o que é que um postulante à presidência tem que meter o bedelho nisso? Ele não está disputando a eleição para Papa.
-- É, mas isso também todo mundo sabe.
-- Ah, mas não mesmo! Se todo mundo sabe, como é que os gênios do marketing, esses que estão aí ganhando por uns meses de trabalho mais do que eu e você vamos ganhar juntas a vida inteira, ignoram?
-- Mas a Dilma também anda com mania de falar em Deus e em ir à igreja por qualquer dá cá aquela palha...
-- Estranho menos, porque a Dilma eu não sei quem é. Eu sei quem são os marqueteiros da Dilma, sei como eles pensam e sei como eles mandam ela se comportar, se vestir e se maquiar, mas, sinceramente, não faço a menor idéia de quem seja a Dilma. Tenho minhas dúvidas, aliás, se ela mesma ainda sabe quem é. Ou quem foi.
-- Pois eu, se escrevesse em jornal, falava da eleição numa crônica sim e na outra também.
-- Já não te basta o jornal inteiro batendo nessa tecla? Você não acha que faz parte do processo democrático ter, num mesmo veículo, assunto para todos, mesmo aqueles que não querem saber das eleições? No outro dia mesmo o Joaquim fez uma crônica linda falando sobre o início da primavera. Estava coberto de razão, as campanhas passam e as primaveras ficam.
-- Pois é, agora você disse: as campanhas passam. É isso que eu estava querendo dizer antes, as eleições passam e se você não falar logo sobre isso não vai poder mais falar, porque elas terão passado...
-- Sim, mas felizmente o assunto não é obrigatório. Eu já acreditei em eleição, já curti tanto campanha política que até andava com adesivo no carro.
-- Você nem tem carro.
-- Já tive. Há muitas luas, mas tive.
-- Mudou você ou mudaram as eleições?
-- As duas coisas, provavelmente; mas acho que as eleições mudaram mais. Antes quase todo carro andava com adesivo, as pessoas punham faixa na janela, sacudiam bandeira, usavam camiseta. E não eram esses pobres diabos que ganham uns trocados para ficar parados na esquina. As pessoas acreditavam, de fato, que o resultado das eleições podia mudar alguma coisa.
-- Mas é claro que pode, como não?
-- Estou cada vez mais convencida de que, em Brasília, todos se tornam iguais. E, ultimamente, quando alguma coisa muda de verdade, em geral é para pior. O Congresso sempre foi isso que a gente sabe, mas nunca teve um Tiririca antes. O meu problema com o Tiririca, aliás, não é que ele seja um palhaço. Acho que há palhaços melhores e mais dignos de confiança do que muitos parlamentares. O meu problema com o Tiririca não é a profissão, mas a indigência mental da criatura. E de seus eleitores.
-- Tá, mas essa fase das eleições já passou. Agora é só presidência, outro nível.
-- Outro nível? E o confronto em Campo Grande, aquilo foi coisa de alto nível?
-- Não, aquilo foi baixaria, mas também não foi tão ruim quanto os tucanos disseram, bolinha de papel ou rolo de fita crepe, vai, nada disso é arma letal...
-- Viu só? Até você está caindo nessa! O problema não é o que jogaram; é ter acontecido! Cuspe na cara também não fere, e daí? Pode-se cuspir nos outros só por causa disso? É inaceitável que uma turma saia para fazer a sua festa, a sua passeata, e os adversários venham com tumulto e provocação! Isso é inadmissível num país civilizado. E não adianta dizer que não foi nada, porque até o comércio fechou as portas... Bando de hooligans! Depois vem o Lula mentir em público e falar em militância de paz e amor, e vem o perito falar em “evento bolinha” e “evento rolo de fita”, mas não vi ninguém falar do “evento pedra” que atingiu a repórter da Globo e tirou sangue.
-- Tá bom, tá bom, então esquece as eleições. Domingo elas acabam mesmo.
-- Ufa! Taí o ponto positivo dessa campanha.
(O Globo, Segundo Caderno, 28.10.2010)
27.10.10
Mais um "descuido"
Depois de José Padilha, cujo nome apareceu na lista de intelectuais que apoiam Dilma sem o seu consentimento, agora é a vez de Ruth Rocha.Ela não só nega que tenha assinado o documento, como mandou carta aberta à Dilma desancando o PT.
Tá lá no Noblat.
26.10.10
25.10.10
Ensino: falam os mestres
Hoje deixo a palavra com dois leitores que fizeram comentários no blog a respeito da coluna da semana passada. Vocês se lembram, não? Falei basicamente sobre o uso da internet na educação, e fiquei encantada com o depoimento do professor Marcelo Freire e do trabalho que vem fazendo; da mesma forma, é muito alentador o que escreve o José Lima, especialmente a respeito do trabalho desenvolvido por uma professora que usa o Facebook como ferramenta de ensino. É bom perceber que a turma está atenta e sensível aos desafios da vida online:
“Sou professor de História da rede pública do município do Rio, trabalho em duas escolas na Ilha do Governador. Neste 2o semestre iniciei uma atividade com os alunos que procura reformular o sentido de pesquisa que empregávamos até então. Eu já mantinha um perfil no Orkut para comunicação com os alunos e um blog pessoal, que também trata de algumas questões profissionais. A primeira idéia, então, foi provocá-los para identificarem imagens postadas no blog que fossem relacionadas aos assuntos abordados e que estabelecessem a relação com a matéria, enviando um comentário através do blog com indicação de fonte de pesquisa até uma data determinada, quando os comentários seriam liberados e todos poderiam comparar as respostas. A idéia é utilizar a linguagem visual, obrigá-los a pensarem em palavras-chave para desenvolverem a pesquisa e valorizarem a procura de fontes que atendam ao pedido, já que elas precisam ser apresentadas e estabelecemos regras para que não se repitam. Ao final, podem checar as respostas dos colegas e verificarem as diferenças entre elas. Curiosamente, as duas escolas públicas onde trabalho possuem laboratórios de informática relativamente novos, mas que lamentavelmente possuem computadores lentos e filtros de bloqueios para Orkut, You Tube e outros que acabam travando a atividade dos que não tem acesso à internet em casa. Já trabalhamos com releituras renascentistas, a ideologia do Cazuza, alguma coisa do Monty Python, e a resposta tem sido interessante. Espero que tenha colaborado de alguma forma para exemplificar tentativas de romper com o simples corta/cola que se faz desde o tempo da Mirador. (Marcelo Freire)”
“Depois de um longo tempo em coma induzido, a escola finalmente começa a acordar. Há vários grupos de pesquisa em Educação que exploram o papel da criatividade e da imaginação no ensino, incluindo também o ensino superior. Um deles é o The Imaginative Education Research Group (http://www.ierg.net/). É preciso atiçar a imaginação e a criatividade das novas gerações. O mundo pertence àqueles que inovam, que vão além do que é trivial. Uma amiga minha que ensina introdução à teoria literária propôs aos alunos a criação de perfis imaginários no Facebook para as personagens dos livros que serão analisados. Os alunos estão adorando a empreitada. Achei a idéia fantástica e fiquei tentado a escrever o perfil de Madame Bovary para o Facebook. A grande dificuldade em levar as inovações para o grande público esbarra na necessidade de treinamento e requalificação de professores. As escolas públicas no Brasil estão também superlotadas. Fica difícil ser criativo e prover feedback individual quando se trabalha com mais de 45 alunos por classe. De uma forma ou de outra, a escola vai mudar. E eu vejo essa transformação como a coisa mais importante para definir o futuro da raça humana. Há apenas duas coisas realmente importantes na vida. Uma delas é a Educação. E a outra não é tão importante assim. (Jose Lima)”
(O Globo, Revista Digital, 25.10.2010)
24.10.10
Como comemorar um casamento
A família e os amigos prepararam uma surpresa para a noiva; puseram o filminho no You Tube e... já foram assistidos por quase dois milhões de internautas!
Muito, muito simpático.
23.10.10
O Rio tem concerto sim!
Neste domingo, dia 24 de outubro às 11 horas da manhã, a L'Art vai provar a você que o Rio de Janeiro tem Concerto sim.Um Concerto Barroco superfaturado de qualidade.
Veja a seguir o que reservamos a você, um investimento de alto valor estético, um horário gratuito para encher o seu domingo de alegria e bom humor!!!
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